O Brasil é um dos países que mais tatua no mundo, figurando entre as 10 primeiras posições, com estimativas de que cerca de 30% a 37% da população possua ao menos uma tatuagem. Em números reais, isso significa que cerca de 60 milhões de pessoas no Brasil tem uma ou mais tatuagem no corpo.
Somos o segundo maior mercado de tatuagem do planeta, e há tatuadores de altíssimo nível em todo o país. A técnica, a produção, o volume, tudo cresceu de forma impressionante na última década.
E ainda assim, a sensação que fica quando você olha para o conjunto da nossa produção é: tem muito mais por vir.
Existe um Brasil que ainda não foi tatuado. E não estou falando de pessoas.
Nossa cultura é uma das mais ricas e diversas do mundo. Temos mitologias, paisagens, histórias, símbolos, texturas, cores e narrativas que não existem em nenhum outro lugar.
A fauna da Amazônia. Os padrões indígenas. A arquitetura colonial do interior. O sincretismo religioso. A cultura popular nordestina. A música que mistura tudo ao mesmo tempo. O jeito brasileiro de ver o sagrado, o profano, a morte e a alegria.
Quanto disso você vê traduzido em arte autoral na tatuagem brasileira?

Trabalho do Professor da The VOID, Denis Mota, na Tattoo Week 2025, para entrega na categoria “Temas Brasileiros”
Há artistas fazendo isso, e fazendo com muita qualidade. Mas quanto mais eu olho por ai, mais eu vejo que o espaço é enorme. A maioria da produção ainda segue as tendências internacionais: tradicional americano, blackwork europeu, neo-japonês, e fora muitos outros. Isso tem valor, é claro, mas existe uma fonte de criação que é toda nossa e que ainda está sendo pouco explorada.
O espaço criativo dentro da tatuagem é maior do que parece, e isso deve ser falado em voz alta!
A tatuagem brasileira está num momento raro, até porque técnica já existe em abundância. O que mais se vê é conteúdo de técnica, workshops e pessoas entregando trabalhos cada vez mais bem aplicados, mas poucas pessoas estão falando sobre criação e arte a partir da cultura brasileira.
É evidente que o mercado brasileiro se expandiu nos últimos anos. O cliente também ficou mais sofisticado e aberto, até porque não existe mais distinção de classe social, profissão ou origem. Todos podem e querem hoje fazer uma tatuagem. E a janela para artistas que queiram trazer algo novo — algo genuinamente seu, genuinamente daqui — está mais do que aberta. Está com pouca concorrência.
Não estou falando de reinventar o que existe. Estou falando de construir sobre o que temos: uma base cultural única, uma visão de mundo própria, uma estética que ainda não foi totalmente destilada em arte corporal.
Tem muito Brasil esperando para se tornar tatuagem, e o que falta não é talento. Mas talvez seja a falta de espaço para desenvolver essa criatividade nacional.
A maioria dos tatuadores brasileiros tem repertório, referência visual, tem sensibilidade, tem história de vida. O que falta muitas vezes na minha opinião não é o material bruto da criação, mas talvez o espaço para desenvolver, para experimentar, para criar sem a pressão imediata de entregar para um cliente.
A criação autoral precisa de exercício, rotina de prática, e um ambiente acolhedor para expandir as ideias. Cada vez mais eu acredito que precisa de mais desafios, fomento e troca com outros artistas que estão no mesmo caminho.
Quando esses espaços existem, as coisas acontecem. Artistas que estavam produzindo trabalhos tecnicamente bons começam a criar obras que têm identidade. Referências próprias surgem. Um olhar único começa a se consolidar.
É por isso que espaços de criação importam, e é por isso que a The VOID vai começar a mexer nesse vespeiro.
Não estamos falando de mais um curso de técnica, mas estamos falando de algo diferente de tudo o que já fizemos antes: de criar juntos, de se desafiar, de explorar o que a tatuagem brasileira ainda pode ser.
A The VOID sempre acreditou que parte do seu papel é ser esse espaço (muitas vezes eu ainda acho que nosso espaço físico deveria ser ainda mais para caber todas as iniciativas).
Um lugar onde tatuadores podem parar de só executar e começar a criar na pressão de um cliente, e buscar um lugar livre onde a cultura brasileira pode entrar como fonte de inspiração para a próxima geração de tatuadores.
Nos próximos dias, vamos revelar algo que foi construído com essa intenção e eu realmente acredito que isso pode destravar muitos artistas.
Continua nos acompanhando, pois tenho certeza que tem muita coisa para ser dita sobre esse assunto.
Lucas Tengan
The VOID Tattoo Academy

