
Tem uma conversa que eu venho tendo com frequência, com alunos, com tatuadores que nos conectamos, no TikTok, e com pessoas que me procuram para debater os movimentos do mercado, sobre uma falsa impressão de que o mercado de tatuagem está saturado.
E a resposta, quando a gente para para olhar de verdade, não é que o mercado ficou difícil. É que o cliente ficou diferente.
Então é sobre isso que eu quero falar hoje.
A virada silenciosa que poucos estão enxergando

Nos últimos anos, algo mudou na relação das pessoas com a tatuagem. E não foi uma mudança barulhenta, com anúncio e data marcada. Foi aquele tipo de mudança que acontece devagar, até que um dia você olha para trás e percebe que o chão onde você estava não existe mais.
O cliente que antes tatuava por impulso, que via uma referência no Instagram e queria aquilo na semana seguinte, que tratava a tatuagem como um acessório que combina com a fase, esse cliente começou a questionar.
É claro que tem muita gente ainda fazendo tatuagem “por impulso” e tem um mercado largo para atender esse tipo de cliente. Mas esse mesmo cliente que já passou por esse momento de impulso, está começando a mudar o seu comportamento.
A alta nos procedimentos de remoção a laser é um sintoma claro disso. O mercado de remoção cresceu de forma expressiva nos últimos anos, e não porque as pessoas ficaram mais descuidadas. Foi o contrário. Elas ficaram mais conscientes. E aí veio o arrependimento de decisões tomadas sem critério.
A boa notícia é que hoje o arrependimento tem solução, e está cada vez mais acessível, mas a notícia ruim, é que ela ainda pesa no bolso.
O mesmo vale para a procura por coberturas. Pessoas querendo apagar o que ficou, recomeçar, ressignificar. Isso fala de uma geração que está reprocessando a própria relação com o corpo e com o que coloca nele.
E dentro desse contexto, o cliente passou a refletir um pouco mais na hora de escolher a sua próxima tatuagem.
O cliente parou de perguntar "o que é legal?" e começou a perguntar "o que faz sentido pra mim?"
Da decoração para a identidade

Os motivos que levam as pessoas a fazerem tatuagens são inúmeros. Seja por querer eternizar um significado, porque achou bonita a arte, porque gosta do artista, ou porque quer se expressar de alguma forma única.
Mas eu pessoalmente acredito — e essa é apenas uma opinião minha — de que todo mundo faz tatuagem por uma questão de auto-estima e para ficar mais bonito. Afinal, a primeira coisa que você faz quando chega em casa depois de uma sessão de tatuagem é se olhar no espelho nu, e avaliar o quanto aquilo enalteceu a sua beleza.
Existe um cenário onde você chega nesse momento de auto-contemplação, e o resultado não é positivo, ou seja, você não gostou tanto do resultado, e aqui é onde o cliente pode estar mudando a forma de consumir a sua tatuagem.
Esse é o ponto que mais importa entender, apesar de ser algo muito subjetivo e individual de cada pessoa. Mas a real é que as pessoas não querem mais se arrepender da sua tatuagem.
Se isso é algo real — e estamos trabalhando com uma hipótese aqui — a tatuagem então está deixando de ser um mero enfeite e algo que é feito de forma impulsiva (ainda que existam muitas pessoas tatuando sem pensar sobre isso que estamos falando), e pode estar passando por uma nova fase de ressignificação.
Ela está sendo ressignificada como linguagem, como extensão de identidade, como algo que precisa ter origem, intenção, significado. O cliente que chega hoje — e estou falando do cliente que você quer ter — não aquele que quer uma arte barata e que desvalorize o seu trabalho. Ele quer uma arte que seja dele.
É quase um retorno às origens. Não no sentido estético, mas no sentido essencial: a tatuagem voltando a ser marca de identidade, não de tendência.
Até porque a tatuagem sempre foi uma linguagem de identidade.
Marinheiros, punks, motociclistas, presidiários, tribos indígenas, comunidades marginalizadas. A tatuagem marcava quem você era, de onde você vinha, a que grupo você pertencia. Ela não era decoração, mas quase como uma declaração de identidade. Às vezes era até risco, porque exibir certos símbolos no corpo dizia para o mundo inteiro com quem você estava.
Esse DNA nunca foi acidental. A tatuagem nasceu como marca de identidade, e carregou esse peso durante milhares de anos.
Mas a partir dos anos 2000, e com força total nas décadas seguintes, a tatuagem saiu dos guetos e das tribos e chegou ao shopping, ao Instagram, às celebridades, às pessoas que nunca tinham tido nenhuma conexão com aquela cultura. O estigma foi caindo. Os estúdios foram multiplicando. Os preços foram caindo junto.
De repente, tatuar virou algo que qualquer pessoa podia fazer. E fez.
Isso não foi necessariamente ruim, porque popularizou o mercado, abriu espaço para muitos tatuadores construírem carreira, trouxe visibilidade para a arte. Mas teve um efeito colateral que só foi aparecer alguns anos depois:
A tatuagem virou acessório.
As pessoas começaram a tatuar pelo que estava na moda. Pela frase que todo mundo estava fazendo. Pelo traçado fininho que o feed premiava. Pela referência que o algoritmo empurrava. A escolha saiu de dentro e foi para fora, para a tendência, para a aprovação social, para o "fica bonito".
E funcionou por um tempo. O mercado cresceu, o volume aumentou, e muita gente construiu agenda com isso.
Até que o ciclo chegou no limite natural de todo ciclo que não tem raiz.
E aí vem a pergunta que muda tudo: qual é a próxima tendência do mercado de tatuagem?
Se é verdade que o cliente está ficando mais criterioso, mais consciente, mais exigente com o que carrega para o resto da vida, será que o tatuador está evoluindo na mesma velocidade?
Porque se o cliente chegou num nível de consciência maior sobre o que ele quer, e o tatuador ainda está entregando o que o algoritmo pede, a conta as vezes não fecha.
O que vamos fazer diferente a partir dessas mudanças?

O mercado mandou um recado claro. E na The VOID, a gente está ouvindo.
Técnica sempre foi e vai continuar sendo a base de tudo. Sem ela, não existe conversa. Mas a gente sabe — e o mercado está confirmando — que técnica sozinha não constrói mais uma carreira com identidade. Ela te coloca no mercado, mas o que te mantém nele é outra coisa.
Por isso, cada vez mais, o nosso trabalho vai além do traço e da técnica. A gente quer ajudar cada aluno a encontrar o que é genuinamente dele. A desenvolver um olhar próprio, uma narrativa visual, uma forma de criar que não dependa de seguir o que está bombando no feed da semana.
Isso passa por autoconhecimento, por exploração criativa, por dar espaço para o aluno se perguntar quem ele é como artista, e ter ferramentas reais para responder essa pergunta com o próprio traço.
Não é um caminho rápido, mas é o único que leva a algum lugar que pode mudar drasticamente a vida financeira de um tatuador, na minha opinião.
Muito se fala em "agregar valor" como se fosse uma estratégia de precificação, mas agregar valor de verdade começa antes do preço.
Começa na profundidade do que você entrega.
E esse vai ser o nosso foco a partir de agora.
Um tatuador que tem identidade própria, que explora a sua criatividade, que consegue guiar o cliente por um processo de criação com intenção, não disputa no mesmo campo que aquele que reproduz o que está na moda.
Ele atende um cliente diferente. Ele constrói uma relação diferente. E ele sustenta uma carreira diferente.
Cada vez mais vamos falar então sobre Posicionamento, e esse vai ser um tema presente na nossa linha editorial do ano.
Por que estamos lançando o Clube de Desenho e Criação

Em março, a The VOID estará lançando o Clube de Desenho e Criação, e eu quero que você entenda por que isso importa.
Não será mais um curso de técnica de tatuagem, nem um workshop de estilo X ou Y.
É um espaço criado especificamente para você se desafiar, toda semana, para explorar a sua criatividade. Seja no desenho, seja na hora de criar um projeto de tatuagem. Para criar sem a pressão de entregar algo para o cliente ou de performar para o Instagram.
É o espaço que há anos que venho idealizando, dentro da capacidade de escola de tatuagem, e eu gostaria que existisse antes. Mas tudo tem o seu tempo, e esse tempo chegou. Vai ser um espaço democrático e inclusivo para que qualquer pessoa que queira se desafiar criativamente terá uma oportunidade de se desenvolver.
Já que o mercado mudou, o cliente amadureceu, e está buscando tatuadores que têm algo de verdadeiro para dizer, e não só tatuadores que sabem repetir bem o que já foi publicado por ai, temos a responsabilidade, então, de desenvolver cada vez mais tatuadores que conseguem expressar algo verdadeiro.
A pergunta que fica é simples:
Você quer continuar entregando o que todo mundo entrega, ou está aberto a descobrir o que só você tem para oferecer?
Se a segunda resposta te move, a gente vai falar mais sobre o Clube em breve. Fica de olho.
Lucas Tengan
The Void Tattoo Academy
